A experiência de transição digital em Cabo Verde e Moçambique foi apresentada aos participantes do 3º Fórum da Cooperação Municipalista da Lusofonia, que reúne no Mindelo durante três dias autarcas de Cabo Verde e da Lusofonia. As intervenções estiveram a cargo de Carlos Mucapera, Presidente da Associação dos Municípios Moçambicanos, e Hélio Varela, diretor Técnico da Unitel Cabo Verde.
Carlos Mucapera apresentou o tema “A transição digital e o futuro sustentável do planeta: Resiliência perante a mudança climática”, enquanto que Hélio Varela discorreu sobre “Transição digital na construção de territórios mais saudáveis: finanças autárquicas e mobilização de recursos”, com moderação de Juan González, Presidente do Fundo Galego de Cooperação e Solidariedade.
Duas realidades diferentes. Moçambique, país com 28 milhões de habitantes e 800 mil m2 de diâmetro, apenas 26% da população tem telemóvel, uma das taxas mais baixas da África e do mundo. É quase um sexto da população, num país que enfrentar perigos-chave como cheias, ciclones tropicais, secas e subida do nível do mar, de acordo com Carlos Mucapera, para quem pouco se tem feito para reverter este quadro.
“Precisamos buscar esta experiência de massificação a nível da transição digital. É preciso reformar a máquina administrativa para facilitar este processo e migrar para a área digital. Hoje o telemóvel é onde o cidadão resolve tudo”, declarou o conferencista, que elencou ainda os desafios que se colocam ao país: produção de dados, conhecimento, serviços digitais, melhoria da educação e compreensão dos comportamentos, fortalecimento das autoridades locais e mobilização de fundos/recursos.
Já Hélio Varela realçou o facto de o digital ainda ser visto como elitista em Cabo Verde, um discurso que, do seu ponto de vista, precisa ser desconstruído. Em jeito de provocação, citou o exemplo do trabalho do trapiche do pai, entretanto substituído por uma máquina que faz o mesmo serviço em tempo recorde para fazer uma analogia com a transição digital.
E desafiou os municípios a tirarem proveito do processo de digitalização, sobretudo em Cabo Verde em que a taxa de penetração do telemóvel é superior a 100% e cerca de 85% da população tem acesso à internet para ilustrar que, atualmente, existe uma apetência natural em utilizar as tecnologias, ainda que na maior parte das vezes para o lazer.
Focou, no entanto, o desafio que a transição digital para os municípios, sobretudo a nível das infraestruturas necessárias, que implica uma reorganização do território para que estas não agridam o ambiente. Falou igualmente dos serviços, mais precisamente da forma de disponibilizar os serviços municipais no telemóvel por forma a evitar deslocações presenciais, para além da simples informatização dos back office.
Ou seja, desenhou a partir da sua intervenção uma outra forma de relacionamento entre o poder local e os cidadãos, tirando proveito das tecnologias. Desafiou igualmente os municípios a criarem ecossistemas para as comunidades, incluindo no pacote as entidades económicas informais. Tudo isso para reforçar a importância das novas tecnologias, que precisam agora ser transferidas para a produtividade.
Estas provocações suscitaram intervenções várias dos presentes, todos reconhecendo a importância da transição tecnológica, que poderão ajudar na gestão municipais, fortalecendo assim a verdadeira transição digital. Neste sentido, várias questões foram colocadas aos apresentadores, todas com respostas, no sentido de investir e inovar para alavancar Cabo Verde.










